Agosto: Mês da visibilidade lésbica e eu não me vi.

Ui! Convida Isabela Panizza

Vamos ao seguinte cenário: festival alternativo com muita representatividade! Temos Pabllo Vittar, artista gay e drag king. Temos também uma participação especial de Urias, artista transsexual. No palco principal vamos ver a Anitta, artista bissexual. Para abrir seu show, contamos com o Jão, artista gay. É uma realidade extremamente próxima do universo LGBTQIA+, certo? Certo. Eu, particularmente, amaria estar neste festival. Porém eu me pergunto, e te convido a se perguntar: você viu alguma mulher lésbica no line? Ao pensar em cenários de inclusão de minorias, sejam desde campanhas publicitárias com artistas convidados, à festivais, você vê mulheres lésbicas? Na balada gay, você ouve músicas de artistas lésbicas? Você sequer conhece o nome de alguma artista lésbica?

O apagamento das lésbicas no movimento LGBTQIA+ é real e vêm de diversas razões. Não sei se existe alguma definitiva ou mais importante que a outra, acho que é o conjunto que resulta nessa invisibilidade. Para isso, te convido a observá-las comigo. Vamos lá?

A INVISIBILIDADE 

Quero basear o ponto de partida numa frase que Ananda Punchta, advogada que defendeu criminalizar a homofobia no STF, falou numa entrevista para OGlobo: Ficamos no limbo entre o movimento LGBT e o feminista. Tendo como base minha vivência pessoal e conteúdos consumidos sobre minha sexualidade, acredito que grande parte da invisibilidade lésbica vem do machismo estrutural, onde vivenciamos um protagonismo escancarado dos homens, mesmo que parte de uma minoria, na sociedade. Tudo na fundamentação social patriarcal dita que o homem é o protagonista e que tudo ao seu redor lhe agrade e lhe sirva. Portanto, como a vivência de uma mulher lésbica não inclui um homem nem de forma terciária, sua visibilidade é deixada de lado, pois quem vem ditando as normas há muito tempo são homens, e isso independe da sexualidade.

Outra realidade que invisibiliza lésbicas é a heterossexualidade compulsória. Entendo e concordo que é uma implementação social que afeta absolutamente todas as pessoas LGBTQIA+, porém no meio lésbico o buraco é um pouco mais embaixo. Ao conhecer um homem que beijou outro homem, dificilmente ele será questionado se essa é realmente a sexualidade dele. Já quando uma mulher beija outra mulher, ela é fetichizada, desacreditada e silenciada. Quero deixar bem claro que isso não significa que o homem gay não sofre homofobia, pois sofre e muito! Meu questionamento vem da veracidade da vivência, onde a mulher lésbica é deslegitimada por suas ações, tendo em vista a heterossexualidade compulsória. Sua orientação sexual é colocada a prova caso ela já tenha se envolvido com homens, por exemplo. Quase como se a sociedade como um todo esperasse o momento em que ela vivesse sua “fase” e voltasse à normalidade, onde construiria uma família com um homem. Existe inclusive um termo fetichista e repulsivo que caracteriza uma mulher que nunca se envolveu sexualmente com homens, chamado de “gold star”, de forma que torna essa mulher como alvo de conquista de homens.

Continuando na vivência sexual, o falocentrismo contribui para a falta de políticas públicas sobre educação sexual lésbica, tendo em vista que em sua maioria são relações entre mulheres cis. Não existe nenhum tipo de campanha para sexo seguro lésbico. Os próprios médicos ginecologistas não são preparados para esse assunto, baseado em diversas vivências de mulheres lésbicas.

Quando pensamos na sigla, temos que ter consciência que o L não é de lacre. Lésbicas são plurais! Podem performar feminilidade ou não, podem ser trans, podem ser cis, podem ser pretas, amarelas, brancas, podem ser mães, podem ser gordas, podem ser magras, podem ser esportistas, podem ser CEOs, podem ser artistas, podem ser donas de casa, podem ser o que quiserem. Além de tudo, elas podem e precisam ser vistas! A representatividade midiática em filmes, séries e novelas, retrata mulheres lésbicas de forma padrão (lê-se cis, branca, magra e feminina), sempre com enredos tristes e finais trágicos, em sua esmagadora maioria, com um homem no meio da história. O protagonismo feminino lésbico é escasso e quase inexistente, inclusive nos espaços ocupados pela sigla em que nossa letra inicia.

CONSUMA ARTISTAS LÉSBICAS!

Entendemos a existência estrutural do apagamento lésbico, certo? Chegamos então no momento em que eu quero te instigar a consumir o trabalho de mulheres lésbicas. Cobre a presença delas nos palcos que você presencia, coloque elas nas suas playlists, consuma seus produtos e serviços e sinta-se incomodado ao não conhecer mulheres lésbicas. Que toda a misoginia, lesbofobia e machismo se apague e que as lésbicas sejam vistas.

29 DE AGOSTO: DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE LÉSBICA

No Brasil, o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica é celebrado no dia 29 de agosto, pois em 1996 ocorreu o Primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), e o Dia do Orgulho Lésbico (19 de agosto de 1983) aconteceu a primeira grande manifestação de mulheres lésbicas em São Paulo. O mês de agosto inteiro é voltado para visibilizar as mulheres lésbicas, e eu quero me ver! As lésbicas, em todas suas pluralidades, querem ser vistas!

Seja você um homem cis hétero, um homem gay, um homem trans, uma mulher cis bissexual, uma mulher cis hétero, conto com você para cobrar a representação lésbica nos espaços que você ocupa, combinado?

 

DICAS LÉSBICAS:

Para fechar, vou deixar algumas artistas lésbicas para você adicional na sua playlist ainda hoje:

Hayley Kiyoko – Veio diretamente da Disney para o mundo pop. Suas músicas e clipes abraçam e contemplam o amor entre duas mulheres.

Girl in red – A norueguesa Marie Ulven é lésbica e conhecida por suas músicas românticas em um estilo pop-folk.

Ellen OlériaTem 20 anos de carreira musical, canta uma mistura de samba com pop. Ganhou o The Voice Brasil em 2012.

King Princess – Pop com uma pitada de sensualidade e romance. As músicas falam sobre mulheres de forma genuína.

Cássia Eller – Quase dispensa apresentações. Artista brasileira e pilar essencial da Música Popular Brasileira.

Karla Da Silva – MPB com uma pitada de Jazz e vocais excelentes!

Simone Magalhães – Ativista da cena lésbica de mulheres pretas em curitiba. Talentosa a um nível absurdo.

Tegan e Sara – São gêmeas idênticas do Canadá e representam o indie pop muito bem.

Joan Jett – Conhecida mundialmente pelas suas músicas de rock. 


Texto escrito por

Isabela Panizza

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