É sempre bom falar de GORDOFOBIA.

É SEMPRE BOM FALAR DE GORDOFOBIA.

Esse é o segundo texto que escrevo. Deve ser isso que os meus professores queriam que eu entendesse quando eles diziam: deixe o texto esfriar, depois retorne a ele e veja que além da sua escrita, você estará diferente. E é sobre isso, sobre ser diferente, estar diferente, ser.

Antes, o meu texto queria ter um lugar de militância e empoderamento, hoje ele quer ser um veículo para possibilidades. E se em algum momento meu texto parecer sobre insegurança, saiba que ele é sobre aceitação diária.

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Cresci acreditando que ser gordo era errado, além de feio, claro.  A sociedade tende, no geral, a associar que o corpo saudável é um corpo magro, malhado, trincado. Nasci em uma cidade com um pouco mais de 6 mil habitantes. Em janeiro de 2007, quando tinha 13 anos, tive uma convulsão e imediatamente fui direcionado a um médico especialista, que após uma bateria de exames, diagnosticou que eu estava em fase de desenvolvimento acelerado e meu cérebro sofreu uma dilatação.

No entanto, tive a infelicidade de ter tido a convulsão no momento em que sentei para tomar café da manhã, e a informação que se espalhou pela cidade foi a de que convulsionei por comer demais. Naquela época, não entendi que se tratava de uma gordofobia velada – na verdade, nem tão velada –, porque se uma criança é gorda, o peso dela será o motivo de todos seus problemas. Somente depois de adolescente, percebi que crescer aos olhos da cidade interiorana pode ser tão cruel quanto ser um adolescente/adulto gordo aos olhos noturnos das grandes metrópoles.

Infelizmente, o meu primeiro contato com a gordofobia foi em casa, foi na rua em que eu morava, foi com pessoas que eu considerava amigos, foi sem perceber, mas que foram me marcando.

Não percebíamos porque a cultura da TV não nos proporcionava olhar o corpo gordo como um corpo possível, aceito, um corpo que existe. Por muito tempo, a moda não nos enxergava, se não fosse para fazer rir, a televisão nos invisibilizava, os produtos de beleza não nos contemplavam.

Por isso, sem mesmo nem entender, eu entrei em um looping, – mesmo com 14 anos – de tomar remédios para emagrecer escondidos, ser adepto à bulimia por 7 anos, tomar cartelas inteiras de laxantes, 5/6  diuréticos por dia, tudo porque falaram para mim que era errado ser gordo. E eu acreditei.

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Eu acreditei e continuei acreditando até o momento em que passei a peitar o preconceito que sofria.

Minha mãe sempre foi uma mulher incrível, sempre me apoiou em tudo o que eu decidi fazer, desde graduação até doutorado. Quando me assumi, ela me acolheu da maneira que eu precisei e nunca fez com que eu me sentisse errado ou culpado por algo, a não ser pela questão do meu corpo e do meu peso. Porém, no dia em que eu entendi e disse a ela que ser gordo era um problema mais dela do que meu, nosso entrave sobre esse tema nunca mais existiu…

Mas o problema é esse entender, porque temos o hábito de que a família não pode ser preconceituosa e/ou tóxica conosco, por conta da maquiagem da abusividade que pega carona no amor.

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Primeiro a família, depois os amigos, depois a balada, depois as paqueras, depois os aplicativos… A gordofobia sempre esteve presente em minha vida, assim como varias questões estão presentes quando se é um sujeito à margem.

Para ser sincero, ainda me sinto privilegiado em muitas questões, como conseguir passar por uma roleta, por ocupar apenas um só assento em um banco de ônibus ou avião, porém a ansiedade que é estar nesses lugares faz eu me tornar cada vez mais empático com quem passa por essas situações.

Porque além do mundo taxar que nós, gordos, somos errados, ele não está preparado para nós.

Prova disso foi todo o questionamento sobre a proatividade do corpo na pandemia, impulsionando inseguranças que deram voz a um discurso de: você precisa se mexer.

Lembro-me da primeira semana da fatídica quarentena e a enxurrada de lives de exercícios, atividades corporais e o contraponto: tudo bem você não estar sendo produtivo. Ilusão.

Ilusão porque sempre que sua produtividade era colocada em xeque, o discurso gordofóbico vinha como chicote, avisando: levanta, gordo, bora treinar! Bora fazer algo para movimentar esse corpo!

O “se mexer” veio à cena, pois até um corpo gordo, que não se exercitava, necessitou tornar-se ativo, ainda mais por estar em casa.  E, ainda mais, fez com que eu me questionasse sobre: e se eu não tivesse desistido da academia e daquela dieta que iniciei em 2015?


  • Um caminho mais de dúvidas do que de respostas!

Quando o vírus chegou, fez retornar o abismo do clichê em ser quem você é, aceitar-se, assumir suas verdades. No discurso, é lindo; na prática, nem tanto. Eu mesmo, para assumir o meu corpo gordo, passei por um processo de desconstrução, desde o meu espaço materno, até a aprender a conviver em meio ao – sem dó, nem piedade – ciclo gay. O vírus apenas se encarregou de nos apontar mais questionamentos do que respostas.

  • Ah, é questão de gosto.

A tour de instalar, desinstalar o grindr parece não ter fim. Desativar e ativar o Instagram parece evento marcado em minha agenda. Tudo isso por conta da própria insegurança que o corpo gordo traz em quem é.

E quando eu falo insegurança, está muito mais relacionado com a preguiça do que com o próprio sofrer, porque, muitas vezes, o sofrer já é um processo superado por quem é gordo, mas a preguiça de ter que se reafirmar, mostrar-se enquanto empoderado, provar que a relação entre eu e meu corpo é saudável, de amor e acolhimento, faz com que a gente desista das relações, sejam afetivas, amorosas ou sexuais.

Meu ranço é atualizado toda vez que eu escuto alguém dizer ou escrever: “Nada contra gordo, mas prefiro os magros”. “Ah, é questão de gosto, né? Já tentei ficar com uma gorda, um gordo, mas não consigo”. Os gordos que namorem os gordos.

Mas quando esses dizeres são reverberados, atualizados, ou até explicitados, é preciso entender que a carga de gordofobia se faz presente – por mais que: “no meu grupo de amizade todo mundo é gordo” –, porque são falas que já estão estruturalmente estabilizadas pelo social. Eu nem milito quando a pessoa não é alguém do meu ciclo, eu apenas a deixo achar que esse é um gosto dela, como se não houvesse uma sociedade parcialmente gordofóbica, que nunca fez questão de sentir prazer, nem em desejar um corpo gordo; e se deseja, a gordofobia é posta como fetiche.

Descobrir que sua camiseta GG e sua calça 44 não lhe servem mais é triste, mas ler que alguém defende o “nada contra, questão de gosto”, para mascarar uma cultura de opressão, é mais triste ainda. Passar o dia tentando murchar a barriga, ou tentando se amar a todo momento, sempre caí por terra quando você é xingado a troco de nada.


  • Faça mais o que você gosta.

 Se você chegou até aqui, eu vou te dizer como faço para tentar aceitar meu corpo e tentar amá-lo como ele é:

Primeiro, crie o hábito de malhar o dedo no unfollow, no silenciar, no desfazer amizade.

Ah, Heitor, é muito imaturo quem deixa de seguir, bloqueia. Errado. Se isso custa seu amor próprio, sua segurança, sua sanidade, você está pagando uma conta alta demais e sem necessidade.

Pense: eu preciso desse conteúdo? Por que eu sigo essa determinada pessoa? Isso está mexendo com minha autoestima? Se a resposta for sim, liberte-se do peso em ter que biscoitar algo/alguém só pelo fato de estar na moda ou por você achar que precisa ver esse tanquinho para te incentivar a malhar.

Isso puxa gancho para uma dica 2 em 1. Ao deixar de seguir pessoas que não te fazem se sentir bem, comece a seguir pessoas que te representam, pessoas que falem sobre coisas que você passa, que te lembrem de como seu corpo é lindo. Siga e consuma marcas que ofereçam produtos para você.

E, se aqui couber, vai uma dica 3 em 1. Confira projetos que coloquem seu corpo à luz do que ele realmente é: LINDO, central e importante.

Segundo, de 3 em 3 horas, olhe-se no espelho e se ame.

Feliz com o corpo

Nossa, o clichê dos clichês. Sim! Às vezes, há clichês que se fazem necessários para lembrarmo-nos de quem somos, o que almejamos em nossas vidas, o que nos tornamos. Quando digo olhar para o espelho, estou falando da metáfora do reflexo, do seu reflexo, na relação você consigo, não na relação você com o outro.

Terceiro, não permita relacionar-se com pessoas que não te aceitam.

Essa eu sei que é difícil, pois a gente tem o péssimo costume de querer o inatingível. Mas é processo, é querer. Aqui não estou falando que um gordo não pode namorar um magro, pelo contrário, uma pessoa gorda pode tudo quanto qualquer pessoa, estou falando para que não se permita estar em uma relação com quem faz piada com gordo, com quem expõe o quanto você come, com quem sempre diz que se preocupa com sua saúde ou faz comparativo com a fulana que emagreceu 40kg fazendo dieta e exercícios físicos.

Ah, aqui estou falando de qualquer pessoa que seja tóxica em relação ao seu corpo; família e/ou parentes não estão isentos de serem evitados, viu? Não é porque é sua mãe, seu pai, seu tio, que vamos passar pano para a gordofobia.

Quarto, sempre é bom falar sobre gordofobia com quem seja importante para você.

Heitor tranquilo em seu lar

Tá. Tudo bem que eu falei para não se relacionar com pessoas que são tóxicas contigo em relação ao seu corpo, mas sempre tem aquela pessoa que consideramos importante. Se você acredita que vale a pena, se lança! É essencial esse processo de dialogação, ainda mais quando há possíveis resultados.

É sempre bom estar em contato com pessoas que são significativas para você. Dê feedbacks quando achar que aquele comentário soou preconceituoso – não apenas em relação à gordofobia, visse? –, que aquela piada na foto da sua prima íntima não foi legal, mesmo que ela “engula há anos esses comentários”. Instrua. Informe. Muitas vezes, é a falta de informação que está fazendo com que esses dizeres se proliferem.

Quinto e último, faça mais o que você ama.

Heitor em sua casa

Quer ficar com o carinha trincado? Fique! Quer emagrecer? Emagreça! Só não permita que tudo isso não seja por você, só não se esqueça que o amor mais importante é o seu. Se você não quer ir naquela balada porque sente que não pega ninguém por conta de ser gordo, não vá! Se isso te incomoda ao ponto de não te fazer bem, evite.

Faça o que ama! Seja tirando foto e postando nas suas redes sociais, seja deixando de seguir gente tóxica e que te deixa com a autoestima baixa, seja usando roupas curtas, apertadas, seja pedindo comida pelo app, seja cozinhando para os amigos, seja comprando os óculos que o seu amigo falou que não combina com rosto redondo, seja dançando, seja não malhando, seja treinando. Faça mais o que você ama. E faça mais por você.

Lembre-se: O corpo perfeito é o corpo que você ama e que é perfeito para você. O corpo ideal é o corpo que você tem. Ninguém é obrigado a ser o que não é.  Esconder-se não é abrigo, é prisão. Amar seu corpo é ser seu melhor amigo. Entender-se, compreender-se e saber que você sempre se respeitará é primordial. Não deixe que as pessoas que não vivem suas lutas comandem sua vida.

INDICAÇÕES DE PESSOAS GORDAS QUE VOCÊ PRECISA ACOMPANHAR:

Alexandrismo Gurgel (Xanda) – Jornalista, Escritora e Fundadora @movimentocorpolivre

Aline LuppigrossiModelo / Produtora / Pesquisadora / Professora de teatro e Performer – Portfólio 

Caio Revela – Digitual Influencer e Ativista do movimento #corpolivre

Projeto Chicos


Texto escrito por

Foto Heitor de Melo

Heitor de Melo

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12 Comentários

  1. O texto ficou incrível! Descreve muito bem o que é ser gordo na sociedade em que vivemos. Triste saber que muitas pessoas se maltratam na intenção de ser aceita. Não devemos baixar a guarda, temos que nos mostrar cada vez mais e enaltecer a beleza e a delícia que é ser gordo! Arrasou ❤️

  2. Eu estou encantado. Já passei por muitas dessas situações. Tirar a camiseta em público pra mim, hoje em dia, é impossível. Mas ler esse texto deixou o meu coração quentinho! ❤️

  3. Palavras muito bem dita é super necessárias amigo… arrasou demais no texto e na sobrevivência!
    Pessoa vem e vão de nossas vidas, porém nosso corpo nos acompanharam até o fim, pq não amá-lo como ele merece?!
    Arrasou muito mesmo!

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