Autores LGBTQIA+ que você precisa conhecer agora!

A Ui! convidou a Lua Lamberti de Abreu para escrever o blog para celebrarmos o Orgulho LGBTQIA+ de 2021.

Alô alô e salve, salve! Aqui é Lua Lamberti, aproveitando o espaço que a Crew da Ui! ofereceu para falar do nosso orgulho, o famoso LGBTI Pride! Um assunto que sempre gera muitas dúvidas, muitas questões e muita festa, então, vamos lá conhecer um pouquinho da nossa história de luta, resistência e acima de tudo, de vida!

O que a gente conhece hoje como orgulho LGBTI surgiu de levantes de travestis, sapatões, michês, pessoas racializadas que sofriam repressão policial pelo único motivo de serem quem eram, nos bares periféricos que eram pontos de encontro e afeto das pessoas dissidentes.

Não dá pra falar sobre Orgulho sem conhecer nossa história! Por mais que hoje nosso movimento seja festivo, colorido e audível, não começamos assim. Nosso Orgulho existe em levantar a cabeça e seguir sendo, resistindo, criando estratégias, negociações, ousando mesmo diante das repressões que tentam nos normalizar, nos invisibilizar. 

E por isso, talvez, seja tão difícil das pessoas entenderem a importância de celebrar o Orgulho. É mais do que festejar as existências, também inclui agradecer e reverenciar grandes nomes que arriscaram tudo, tudo mesmo, para que a gente pudesse falar disso abertamente hoje. 

Se eu posso, cheia de orgulho, falar que sou a primeira travesti a concluir uma pós graduação aqui na cidade de Maringá, é porque Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e Stormé DeLarverie não abaixaram a cabeça para as violências institucionalizadas, lá nos anos 60, nos EUA. É porque, aqui no Brasil, Xica Manicongo descobria suas formas de continuar sendo, mesmo com punições e violências. É porque Luma de Andrade, Megg Rayara de Oliveira, João Nery, Helena Vieira, Amanda Palha, Lina Pereira, Jaqueline de Jesus, Jonas Maria e tantos outros nomes de intelectuais, ativistas, artistas e influenciadores trans colocaram causas coletivas entre suas missões de vida, produzindo saberes, materiais, mídias, conteúdos de todos os tipos que acolhem, defendem e empoderam pessoas LGBTI em tantas instâncias. 

Meu ponto aqui é pra gente não se esquecer de se lembrar: Nosso movimento foi construído e carregado por pessoas que, no geral, falhamos em reconhecer: travestis negras, latinas, sapatões fanchas, bixas afeminadas, prostitutas, transhomens, soropositivos, enfim, as pessoas que a norma prefere apagar. 

É importante darmos esses nomes, porque mesmo hoje, em 2021, em pleno mês de orgulho, vale o exercício de reflexão: quem são as travestis que nós conhecemos? Que nós admiramos? As quais nós honramos? Que nós contratamos? Por quem nós nos apaixonamos? Por quem nós cultivamos carinho? Citando a grandíssima Angelica Ross (A Candy, de Pose), há algo de muito estranho em não ver pessoas trans sendo honradas em movimentos delas próprias em resposta ao mundo que falha em nos honrar (ou sequer nos respeitar). 

Por isso, além da festa, do desbunde e de transbordar orgulho, é preciso que a gente conheça nossa história, afinal, “quando não se tem memória, se repete a velha história”, nos alerta Linn da Quebrada. No país que, ao mesmo tempo, mais mata pessoas trans e travestis e mais consome pornografia T, precisamos repensar os lugares que colocamos essas corpas gênero não conforme: a revolução começa em você, por você! Onde você deposita sua energia, sua admiração, seu tempo, seu dinheiro, sua atenção? Ouça as vozes das margens, ouça quem precisou gritar para reclamar sua existência, ouça aquelas e aqueles que parecem difíceis, justamente porque nos silenciam para que nossas vozes não cheguem. Busquem! Conheçam! Admirem! O nosso Orgulho está em nossas transcestrais! 

Esse é o recado que eu gostaria de deixar para nosses Ui! Lovers. Celebrem nosso orgulho, não esqueçam das nossas histórias e, mais uma vez recorrendo à grande Linn da Quebrada, “mate em você o macho branco senhor de engenho colonizador capataz”! Cultive o Orgulho no peito não só no mês de junho, mas como estética de existência! Então, vou deixar aqui seis dicas de autorias trans e travestis pra vocês conhecerem, além de mim mesma, evidentemente, né?! Ler, ouvir, assistir, consumir criações transcentradas ajuda a gente a reconhecer existências que hegemonicamente são marginalizadas! Segue o fio:

Um Apartamento em Urano: crônicas da travessia – Paul Preciado (2020):

Coletânea de crônicas escritas ao redor do mundo pelo filósofo transhomem Paul Preciado. Os textos são independentes entre si e super curtinhos, o que facilita a leitura, e flerta com relatos pessoais, análises políticas, teorias, memórias e relações afetivas! Vale super a leitura, com destaque da minha crônica favorita, Quem defende a criança queer? Sem dúvidas um dos meus autores favoritos, recomendo a leitura de seus outros títulos também, como Testo Junkie e Manifesto Contrassexual, por exemplo. 

O Diabo em forma de Gente: (R)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação – Megg Rayara Gomes de Oliveira (2020):

A autora, professora da UFPR, foi a primeira doutora travesti preta do país e o livro é a adaptação da sua tese, nacionalmente reconhecida e premiada. Seu trabalho faz uma dobra fundamental entre raça, gênero e sexualidades dissidentes, com um olhar para além das teorias acadêmicas, sendo ativa nos movimentos sociais, tanto LGBTI quanto dos movimentos raciais. Além de ser uma grande inspiração e uma pesquisadora rigorosíssima, seus textos trazem um núcleo bibliográfico não eurocentrado, outro ponto importantíssimo. Quem tiver a oportunidade, assista essa travesti, é uma experiência única na vida!

Teatra da Oprimida: últimas fronteiras cênicas da pré-transição de gênero – Dodi Leal (2019):

Texto organizado pela professora doutora travesti Dodi Leal, que reúne muitos capítulos discutindo teatralidades e questões políticas partindo do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, muitos de autoria ou coautoria da própria organizadora, além de outras escritas trans, como Ave Terrena Alves. Vale muito a recomendação para repensar os moldes clássicos que, curiosamente, são sempre cisgêneros, masculinos e brancos. A autora tem também outros títulos para quem se interessar, como Luzvesti: iluminação cênica, corpomídia e desobediência de gênero. 

Compreender o Feminismo – Sam Bourcier (2021):

Um livro muito didático e introdutório, com uma análise crítica de diferentes vertentes feministas, imbricando questões culturais, sociais e políticas, além das teorias que se propõe dar conta. Aqui no Brasil, a tradução é de um grupo de professoras da UEM, que desenvolveram as artes da capa e do miolo, trazendo mais pra perto da nossa realidade, uma vez que o autor é europeu. Bourcier tem outros títulos muito instigantes e fundamentais para os estudos de gênero e para o transfeminismo, como Homo Inc.orporated: o triângulo e o unicórnio que peida. 

Os Unicórnios Revolucionários da Casa Dente-de-Leão – Salomé Abdala (2020):

Nem só de teoria e escrita científica vive a literatura trans! A obra de Salomé é de uma leitura fluida, apresentando um universo fantasioso muito vasto, com relações políticas, metáforas de intolerância, insurreições e relações afetivas. Contém personagens cativantes e complexas, com uma narrativa muito intimista, literalmente como se a autora sentasse com você para tomar um café. Salomé entrega um livro denso e, ao mesmo tempo, aconchegante, numa história imersiva de ritmo muito próprio!

Caligem – Pricila Elspeth (2021):

Conto de ficção científica escrito pela nossa musa nacional desse gênero, trans afro-indígena, Pricila traz suas personagens sempre complexas atravessadas por diversos marcadores sociais. Ela coloca no nosso imaginário figuras com diversidade funcional, sexualidades não normativas, racializadas e, evidentemente, com questões de gênero desviantes do binário cis. Esse conto introduz ao universo sci-fi que a autora desenvolve em muitos outros contos, que vocês podem encontrar em suas redes ou blog, como autora independente com leitores até internacionais!

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